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Defender o autoconhecimento é quase um cacoete para nós, terapeutas. Entendemos que, quanto mais mergulhado naquilo que é, maior a capacidade de realização do ser humano. Mas esquecemos de uma valorosa lição anterior a essa questão.
É bem comum receber em meu consultório pessoas com queixas difusas, um tanto repetitivas, sobre um mal estar que as acompanha. Quando convidadas a se aproximarem do motivo da perturbação, assumem uma postura de esquiva.
Algumas chegam a confessar (pouco antes de abandonarem o processo) que não gostariam de mudar. Até mesmo quando atestam como este modo de ser acarreta sofrimento.
A dificuldade manifestada aí é a do autodesconhecimento. Em suma, a nossa capacidade de revisar e avaliar crenças que nos guiam, antes de propor alguma transformação.
É impossível reestruturar a vida sem uma disposição prévia de mudança de perspectiva, sem estarmos dispostos ao compromisso do exercício. As transformações quase nunca se dão pelo curso natural dos acontecimentos, e sim porque nos dispomos a alterar as rotinas, conceitos e interpretações. Dá trabalho. Mas pode valer a pena.
Especialmente porque esse processo de desconstrução não é exatamente um aniquilamento daquilo que fomos até agora. É como um brinquedo de peças de montar: elas continuarão úteis e necessárias às novas formas elaboradas ao longo desse processo.
Desconhecer-se é também desacostumar-se com os velhos discursos, muitas vezes repetidos e assumidos sem mais nenhum questionamento: muitas vezes, velhas formas de proteção para ameaças já ausentes e que, se ainda presentes, já seríamos capazes de enfrentá-las.
Muitos se perturbam com um sentimento esquisito, como se experimentassem uma sensação de traição a estes ideais que já foram tão caros. Honrar as bandeiras orientadoras do passado não significa precisar mantê-las hasteadas – quando já não mais traduzem nosso norte atual.
Não devemos temer o vazio, a incerteza e a inquietação, pois é a partir deles que encontraremos novos recursos – muito mais pertinentes àquilo que nos atravessa hoje. O velho pode encobrir o novo, o saudável.
Nisso consiste de fato o tal autoconhecimento tão desejado. Ampliar a consciência do si mesmo é poder explorar ao máximo as possibilidades e potências que nos consagram como um ser único. Mas elas só se revelam quando olhamos para dentro, norteados pela máxima socrática do “só sei que nada sei”.

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